quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Manifesto: Jacuri pede socorro




Estamos no último dia de 2014 e não poderia deixar que o ano acabasse sem esse manifesto. Impressionante que o que podemos chamar aqui de "evolução da sociedade" ainda viva um verdadeiro retrocesso em vários sentidos. 

Considerando a democracia no consumo da informação e na produção e consumo de conhecimento, como os smartphones, a internet e o acesso ao ensino superior, esperamos ou deveríamos esperar, que hoje com pessoas mais bem informadas e com mais conhecimento, tivéssemos com isso uma maior contribuição para a construção de uma sociedade melhor. Ao contrário, o que vemos é um distanciamento cada vez maior desses "novos compreendidos", dos problemas sociais e políticos do lugar em que cresceram e onde se formaram cidadãos.

Jacuri deu ao mundo dezenas de professores, um número altíssimo de médicos, farmacêuticos, analistas de sistema, advogados, enfermeiros, engenheiros, técnicos, juiz, jornalistas... que circulam por suas ruas nos períodos de férias. Cito esses diplomados para ressaltar que falta de informação e conhecimento não é impedimento para qualquer compreensão da situação em que a cidade vive hoje. Isso sem falar nas centenas ou milhares de pessoas que não passaram por uma faculdade, a exemplo do meu pai que cursou só o primário, mas mesmo assim, num esforço diário, vive o dia a dia do lugar com certa indignação mas não sem esperança. Esperamos mais que apenas alguns trocados gastos no comércio local durante as férias, desses cidadãos conscientes, mas que contribuam urgente para a promoção da nossa sociedade. 

Uma cidade com pouco mais de 6,5 habitantes (IBGE 2014) apresenta questões sérias que deveriam no mínimo nos fazer pensar. Vivemos um longo período de ostracismo cultural, com uma perda considerável da nossa memória e identidade, um ranso político que considera política um jogo sujo de interesses egoístas e conduções nada transparentes, que absurdamente fazem inimigos que teoricamente deveriam lutar pela mesma coisa. Nossas lideranças comunitárias não lideram mais, a igreja se intimidou, a socialização das pessoas - de grande parte delas - se resume a shows populares na praça uma vez no ano. O ensino não aprendeu a lidar com esse novo perfil de alunos, desmotivados e desnorteados, sem idealismo, diferente por exemplo da minha "turma legal" de 8a série que cantava Legião Urbana e questionava o sistema. 

Sobre nos fazer pensar, invoco a cada jacuriense, que por menor que seja sua consciência social, não consiga mais dormir sem se certificar de que a porta de casa esteja seguramente trancada, como se isso fosse de fato uma proteção contra essa realidade que nós estamos criando. Somos culpados sociais das vítimas sociais produzidas por nós, e o pior, fingindo ser um problema "dos outros", mesmo estando ele ao nosso lado. Banalizamos o fato de um jovem dar fim à vida com um tiro na cabeça. E tivemos outros casos de suicídio que coloca a proporção de suicídios p/ habitante de Jacuri uma estatística pavorosa. Pacientes psquiátricos? Casos notificados? Acompanhados? Não sabemos e nem jamais saberemos enquanto banalizarmos esses feitos, gravíssimos. Os casos de depressão assustam mas arrisco dizer que os casos não diagnosticados podem ser mais de dez vezes maiores. E o caso da invasão das drogas, tanto no âmbito de uso quanto no tráfico, já que onde há usuário há traficante, completamente ignorado e banalizado na cidade? A questão do uso não é mais um caso de polícia mas de saúde pública já que polícia não trata viciados. 

Jacuri está gravemente doente, pedindo por socorro, caminhando para um agravamento e tão logo o veremos agonizando.  É o preço a ser pago por termos abandonando nossos valores, nossa identidade cultural, pelo abandono das políticas sociais que apostavam nas pessoas como agentes transformadores. Estudei numa Marcílio Dias que me ensinou a ser cível, a cantar todos os hinos (ainda sei todos), a guardar todas as datas comemorativas, a respeitar a lei e a ordem. Uma John Kennedy me ensinou sobre o mundo que me esperava lá fora, me preparando para ele. Lá estudei sociologia e política, inclusive de outras culturas. É essa a escola que precisamos. A escola que forma um cidadão direito, consciente do seu papel social, dos seus direitos e mais ainda dos seus deveres. 

A lista de questões urgentes seguem com uma ação efetiva e reforma contundente nas escolas, na sociedade e no poder público que deve oferecer aos jovens outra opção que não seja o incentivo ao etilismo, na ação policial que deve coibir o trânsito de não-habilitados e alcoolizados ao volante, que deve combater piamente em conjunto com a polícia civil o tráfico de drogas, a igreja que deve manter firme seu papel social de inserir o cidadão num grupo que o reconheça. Das lideranças sociais e comunitárias, que devem além de tudo, resistir às dificuldades oriundas do abandono em que vivem, como líderes. Aos jacurienses ausentes, a quem cabe um papel mais ativo visto que também são parte do lugar. Ao poder público representado pelo papel da prefeitura, que deve de uma vez por todas entender que gestão pública é gestão participativa e transparente, se eximindo de qualquer favoritismo e pretencionismo, se guiando sempre pelo caráter e pela retidão, e principalmente consciente de que não existem crimes grandes ou pequenos, mas crimes. E de uma forma geral, à toda a comunidade que deve resgatar a todo momento, nossos valores, nossas festas, nossas tradições, nossa história. 

Solução? De acordo com Marx, a "sociedade civil é o sistema de relações sociais, realizadas através de instituições sociais encarregadas de provê-la, como família, igrejas, escolas, polícia, partidos políticos, meios de comunicação, etc. É o espaço onde as relações sociais e suas formas econômicas e institucionais são pensadas, interpretadas e representadas por um conjunto de idéias morais, religiosas, jurídicas, pedagógicas, artísticas, científico-filosóficas e políticas.'' Isso significa que não haverá o que fazer se cada grupo fizer sua própria intervenção. Essa intervenção deve ser conjunta, social, onde todos têm papéis participativos e bem definidos. Marx diz que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem em condições escolhidas por eles. "São historicamente determinados pelas condições em que produzem suas vidas." E quais são as condições que produzem nossas vidas hoje, em Jacuri?


Sendo assim, antes que novos desastres aconteçam, que novas vidas se percam, que novas famílias se choquem, possamos fazer alguma coisa, já que definitivamente não estamos alheios ao que acontece em nossa Jacuri porque somos parte dela. 

Jacuri pede socorro. E a culpa é nossa. 

"Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina sua consciência."

Um comentário:

Luiz Henrique disse...

Bela explanação. Cabe a todos mudar o cenário.