terça-feira, 19 de julho de 2011

Não tem mais do mesmo


Ontem um grande amigo com quem não falava a muito tempo me ligou no final da noite. Foi mais de uma hora de conversa, que aliás serviu para que eu experimentasse um sentimento estranho. Bom seria se pudéssemos sermos tocados assim por situações tão banais, como a de receber uma ligação de bate-papo bobo numa noite de domingo, mais vezes, a ponto de repensarmos nossa própria existência.

Até o meio da conversa ainda não tinha me dado conta de como ela evoluía para praticamente uma sessão de terapia comportamental. Perguntas do tipo "como você está?", "como está sua mãe, seu pai, sua irmã, seu irmão?" e por aí vai, foram sendo respondidas com riqueza de detalhes na narração dos últimos acontecimentos de cada um da família. De repente, a pergunta:

-Me lembrei de você agora e resolvi ligar. Se lembra daquela camisa que te emprestei e nunca mais peguei de volta? Dei falta dela. Tem usado?
-Não, eu não tenho usado por que ela não me serve mais, ficou curta.


Engordei um pouco. Olhei para uma pilha de camisetas à minha frente e vi que não uso mais a metade delas. Algumas não caem mais tão bem em mim por que ficaram curtas, outras por que desgostei, por achá-las muito coloridas. Me tornei menos estampado.

Notei que meu amigo não conseguia me imaginar um pouco mais gordo por eu não ter biotipo de gordo. Desisti de explicar que na verdade só ganhei uns quilos que me eram devidos, já que pesava pouco mais de cinquenta.

Papo vai, papo vem, ele perguntou se ainda tenho ido a um barzinho que era praticamente a extensão da minha sala de aula, próximo da faculdade.

-Como assim não vai mais? Você morava naquele bar?!


É, não vou mais a quase um ano. Não tinha notado que não ia lá a tanto tempo.

-Então não tem saído mais com fulano, beltrano e sicrano?

Não, eu mal vejo essas pessoas. Algumas acho que o retrato da fisionomia até já se perdeu no tempo.

-Mas você dizia que sicrano era como um irmão?!

-Eu dizia tanta coisa que achava saber...

Acho que ele se assustou pelo meu "para sempre" ter durado tão pouco.

O trabalho também mudou, minha ocupação principal agora é outra, os lugares que frequento são outros, minhas aspirações são outras. Será que sou o mesmo?

Não, definitivamente não. E digo sem lamento. Eu diria que escolher, ser escolhido e fazer dessas tramas um passo para nos tornarmos pessoas melhores é uma experiência muito agregadora.

Escolhi não abrir mão dos meus sonhos e nem sacrificar meus princípios. Natural que o Nelio de um ano atrás não seja mais o mesmo, e que bom que é assim. Não desmereço a inocência que não me deixou ter medo lá atrás mas precisei abrir mão dela para também saber recuar.

O que é para sempre? O sentimento que algumas pessoas me fizeram experimentar, talvez. Acredito que alguns tenham um papel em nossas vidas e depois de tê-lo cumprido, ou não, partem. Por isso a sensação de que as pessoas mudaram. Não mudaram mas apenas nos esconderam seu pior lado, e que bom que tenha sido assim.

E depois vêm novos rumos, novas pessoas. Algumas com a faculdade de se tornarem eternas e enquanto que alguns eternos duram poucos anos, outros duram enquanto quisermos tê-los. Hoje tenho muitas pessoas que quero pelo tempo que eu puder tê-las.

Mudei muito e nem tinha me dado conta do quanto, mas mudei para melhor. Isso é cumprir meu papel, afinal, minha razão der ser está justamente em fazer de mim, uma pessoa melhor. Se não, qual seria a graça?

A conversa precisou ser encerrada pelo avançar das horas, mas ainda ruminou comigo por algum tempo.

Na verdade, até agora talvez, me dando a certeza de que hoje está do meu lado quem precisa estar, exatamente como bem disse Fernando Pessoa:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

Sou mais feliz quando repenso meu mundo, por mais óbvio ou confuso que ele seja.