segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eu sou feito de quê?

A rua é a mesma a 29 anos mas, quem desce...


Achei que fosse morrer. Fui advertido mais de uma vez a não misturar manga com leite e não entendo como pude me esquecer disso. Talvez a culpa fosse das companhias. Apanhar manga assim direto do pé na companhia de novos amigos tão legais não era programa de todo dia e deve ter sido assim que me distraí.

Por volta de três da tarde de um dia bonito foi dada minha sentença. Como não sabia por quanto tempo ainda estaria vivo, corri para casa. Queria morrer dormindo. Abracei minha mãe talvez com o abraço mais apertado que já tenha dado até hoje, passeei pelo quintal, dei ao meu irmão meu brinquedo mais querido, se não o único que tinha - um carrinho de madeira - mesmo sem ele ter idade para sequer manuseá-lo e esperei que meu pai chegasse do trabalho. Queria pedir um abraço, mas será que ele entenderia? Me contentei em apenas abraçar uma camisa dele pendurada detrás da porta do quarto que ainda tinha seu cheiro.

Deitei e esperei. Não sabia como se morria. Uma dor forte no peito ou falta de ar? E se fosse dormindo talvez não houvesse dor. Dormi.


Manga com leite não mata. O mundo também não acabou em 2000 como o menino Jesus mostrava com os dedinhos, no colo de José lá na igreja. Então, o que mata? Ou o que faz viver?

Foi bem longo esse caminho desde que nasci - ou desde quando não morri - até hoje, ou até os próximos dias quando vou ficar um ano mais velho.
O que foi feito de mim?
O que ainda resta em mim daquele garoto com medo de morrer?
Depois de descobrir que leite com manga não mata, tudo ficou mais fácil, inclusive viver.

Saí de casa com 15 anos sozinho, para conquistar o que pudesse ser conquistado. Entre as primeiras conquistas estavam um almoço pelo menos dia sim, dia não e uma cama onde pudesse dormir. Depois viria trabalho, amigos, grana. Só havia uma opção para marcar nessa prova e "não dar certo" não existia por que eu estava a quase quatrocentos quilômetros de casa.

Casa... cheguei a me esquecer o que era isso. Casa, roupa de cama com cheiro de mãe, comida de vó... Eu havia perdido meus maiores tesouros. Mas dava-se um jeito para tudo, com excessão do medo de ficar doente e não ter sequer um chá de folha de laranja para tomar.

Eu tinha muito pelo que lutar. Queria reescrever minha própria história. Na verdade, precisava.

No primeiro emprego, mensageiro, como dizia minha carteira, eu levava remédios e "causos" de Jacuri a quem ligasse para a Drogaria Santa Marta do bairro Cidade Nova para pedir nada além de remédios. O motoqueiro que eu nunca mais vi na vida, me pagava pão com mortadela no lanche, que muitas vezes era meu jantar, ou nos finais de semana, minha única refeição do dia. Com ele aprendi algo sobre generosidade. Carrego até hoje muitas coisas boas que aprendi nessa época. De pior mesmo foi só uma gastrite, que insiste em me provar que há coisas que não se supera.

Uma coisa é fato: eu sou feito de sonhos. Sonhei desde o dia em que pisei aqui em Belo Horizonte pela primeira vez na vida, trazidos por dois grandes amigos (Leduardo e Rodrigo). Parado na praça da rodoviária, levantei os olhos para admirar o prédio do Minas Brasil, fiquei tonto e prometi que aqui eu me faria "alguém".

E enquanto houver uma estrela no céu - mesmo que solitária - para simbolizar um pedido meu, vou pedindo. Tô sempre querendo alguma coisa.

Quis ter alguém, quis me mudar pro Rio, quis fazer teatro, quis reencontrar amigos, resgatar antigos, quis ser feliz, quis ir, vir, voltar. E é disso tudo que eu sou feito. Dessa inconstância toda.

Lamento pouca coisa nessa vida. Lamento alguns poucos desafetos, lamento não ter vivido uma série de coisas que não poderão mais ser vividas, não pelo tempo que não volta mas por essas pessoas não estarem mais aqui. Lamento pelos abraços que não houveram, mas celebro ter aprendido a criar outras formas de abraçar.

E é desse pacote que sou feito, esse poço sem fundo de sonhos, de bem-querer, de jornalismo, de teatro, de viagens, de amor, de pai, de mãe, de irmãos...

...do que escrevo, do que fotografo, dos amigos que amo de um amor que nem sabia ser capaz de sentir, desse quarto de bagunça organizada, dessas dezenas de camisetas coloridas que não dou conta de vestir...

...do meu time, meu caderno, meu computador, meu celular, minhas caminhadas, meu chope, minha varanda, minha filosofia. Disso tudo que construi desde que não morri é que sou feito e que comemoro nesse mais um ano de vida. Não tenho mais medo de ficar velho.

É fato que ainda não tenho muita coisa e nem sou bem sucedido mas, toda essa minha complexidade me faz re-significar minhas conquistas. Não sei milhares de coisas, mas de uma eu tenho certeza: Eu sou feito de sonhos.

Que venha mais um ano. Estou pronto para envelhecer.

Aproveito para compartilhar um poema da Martha Medeiros que fala - e muito bem - desses "pedaços de mim". Boa leitura!


PEDAÇOS DE MIM

Eu sou feito de
Sonhos interrompidos
detalhes despercebidos
amores mal resolvidos

Sou feito de
Choros sem ter razão
pessoas no coração
atos por impulsão

Sinto falta de
Lugares que não conheci
experiências que não vivi
momentos que já esqueci

Eu sou
Amor e carinho constante
distraída até o bastante
não paro por instante


Tive noites mal dormidas
perdi pessoas muito queridas
cumpri coisas não-prometidas

Muitas vezes eu
Desisti sem mesmo tentar
pensei em fugir,para não enfrentar
sorri para não chorar

Eu sinto pelas
Coisas que não mudei
amizades que não cultivei
aqueles que eu julguei
coisas que eu falei

Tenho saudade
De pessoas que fui conhecendo
lembranças que fui esquecendo
amigos que acabei perdendo
Mas continuo vivendo e aprendendo.


Ao som de "The Only Exception"