quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

"o sertão sou eu"


Vista do pôr do sol da varanda de casa


Como sempre, parecia que não daria tempo, mas ao final, tudo certo na viagem para a folia de Momo. O atraso de quase duas horas por conta de um problema mecânico no carro não nos tirou a empolgação.

Jacuri foi o destino. Chegamos já quase onze horas de uma noite muito quente. Deixei as malas no chão da cozinha e desci. A rua havia sido cuidadosamente enfeitada para a ocasião. Longas faixas de pano vermelhas e amarelas orneavam a praça e davam num palco quase enorme, montado ao lado do bar da Nildeci.

A rua lotada. Mesas e cadeiras tomavam conta do espaço. Pessoas bebiam, riam e se abraçavam. Como eu, muitos não se viam desde o final de ano.

Bom estar de volta em casa, rever amigos, rever lugares. No sábado, passei um dia mui prazeroso. Na companhia de um casal amigo e de alguém que fazia de mim também casal, fomos visitar um velho amigo e seu sítio.

O caminho do sítio é bem aprazível e o endereço fácil de se chegar. Pega-se a estrada asfaltada em direção a cidade de Coluna. Depois da entrada de Frei Lagronegro (que você não deve entrar, mas seguir adiante), logo depois da fazenda do meu amigo de infância Cleiton (que aniversaria dia oito de maio, portanto taurino assim como eu. Não sei se ele ainda mora lá. É possível que tenha se casado e se mudado, como muitos dos meus amigos de infância), tem um morro. Ao pé do morro, basta entrar numa estradinha de terra à esquerda, aberta entre pés de eucalipto.

Até a casa são duas porteiras que foram abertas por mim, que me senti o próprio menino da porteira do Sérgio Reis (três com a da própria casa), uma venda e um lago. Logo na entrada, cachorros anunciaram nossa chegada e uma senhora muito gentil abriu a porteira, que cantou algo que soava uma música gostosa de ouvir parecida com aquela que os carros de boi cantam. A senhora ralhava com os cachorros. Um deles se chama Lula.

No terreiro espaçoso, recém-varrido ao que parecia e rodeado de flores de várias cores, foram aparecendo outras pessoas que nos saudaram com um "vão entrano. Os cachorro num pega nada não."

Entramos. Meu amigo surgia de bermuda, bota, uma camiseta à estilo pano de chão e um sorrizão fresquinho, do tamanho do mundo no rosto. Nas mãos baldes vazios segurados na altura do peito para não deixar ao alcance dos leitõezinhos que o seguiam chorando por mais um pouco de soro (bebida usada para tratar de porcos, que nada mais é do que a água que escorre dos queijos).

O sítio é modesto. Talvez não. Talvez seja. Tem um estilo "paraíso". Depende de quem é o visitante pra vê-lo assim ou assado. Pra mim era o paraíso. Assim que cheguei até a cozinha fui recebido com um copo de café fresquinho, servido num copo esmaltado e um um pedaço de queijo, que representava exatamente um quarto da peça inteira. Eles chamavam esse pedaço de "pedacinho de queijo". Não posso nem imaginar quanto seja um pedação.

Depois peguei uma enxada e fui pra debaixo do bambuzeiro arrancar minhocas. Com um punhado de iscas enroladas numa folha de taioba, beirei o tanque. Não errava uma fisgada. Garanti o tira-gosto do dia.

Conheci Querlúcio. Muito simpático e engraçado. Logo que chegamos, ele logo veio ao nosso encontro e fez a maior festa. Meu amigo diz que ele adora receber visitas. Querlúcio é o jegue do meu amigo.

Não achei estranho Querlúcio ter nome. No sítio todo mundo tem, até as sambaias. Mas o mais estraordinário mesmo são as galinhas. Elas são chamadas na hora das refeições pelos nomes. E respondem.

Depois dos lambaris que eu havia pescado estarem limpos e fritos, fomos para a varanda tomar uma pinguinha da roça, tendo como tira-gosto além dos lambaris fritos, camarão seco, ao som de Mercedes Sosa e Bethânia. Perfeito. Sai de lá embriagado, mas não de cachaça (apenas), mas de poesia.

Varanda de casa. Meus pés descalços e minha fitinha bobmarleana


Teve outros momentos ímpares na viagem também. Minha mãe me preparou aquele franguinho com quiabo e comi banana verde frita e o tal acarajé que tanto gosto.

O desfile de carnaval também foi bem bacana. Vou falar melhor dele lá no blog de Jacuri.

Minhas última viagens a Jacuri tem sido isso ultimamente, um lance de resgate, de encontro comigo. É como se de repente eu olhasse um pouco pra trás, como que para uma tela e me visse como personagem, correndo praquelas bandas, pescando, crescendo e sonhando. Acho que hoje me distanciei muito do que fui um dia. Isso não é necessariamente ruim, desde que eu tenha com Jacuri e o povo de lá, essa relação de valorização. Assim eu não nego minhas raízes. Se no Grande Sertão: Veredas "o sertão sou eu", Jacuri é o meu Grande Sertão: Veredas por que Jacuri sou eu.

Um comentário:

Camila Sol disse...

Textos escritos com prazer são perceptíveis. As palavras tem sentimento e passam uma sensação gostosa de não querer que o texto acabe. Voce encanta a todos com as histórias de Jacuri. Ainda quero ir para lá, em boas companhias, incluindo você. Ah...você não falou do "rebolaixon" aqui, ams espero ver ele no blog de Jacuri. Beijo.