segunda-feira, 10 de agosto de 2009

eu e belo horizonte

belo horizonte a 1350 metros - serra do curral - foto: nelio souto

depois de muito tempo, parei. parei para continuar.
venho falar de destino, de travessia. venho falar de águas, ora violentas, ora calmas, que fazem parte do caminho que percorro. venho falar da terceira margem do rio (caminho), do meu rio, de que um dia falou guimarães (rosa).

"ah! tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. eu atravesso as coisas - e no meio da travessia não vejo!
- só estava era entretido nas idéias dos lugares de saída e de chegada."


guimarães me mostrou a percepção de travessia, onde se fazem escolhas, criam-se novas margens e novos rios. onde se vislumbram outros (novos) destinos.

cá estou eu em belo horizonte à dois anos. acolhido de uma terra distante, estreita, inocente. como drummond.

aqui também tive minhas primeiras incursões no campo intelectual, conheci sociólogos, jornalistas, poetas, escritores, cineastas, artistas da pintura, atores, gente sábia, gente humilde, gente boa.

aqui dirigi minha primeira peça. se conquistei algum respeito, ao povo daqui o devo. belo horizonte hoje me deu ao mundo, generosamente, como me recebeu da pequena jacuri.

meus passatempos provincianos foram substituindo por "a fazeres" de gente moderna. cafés, teatros, museus, parques, cinemas. (ah! parque das magabeiras, meu refúgio de mim mesmo).

cidade de linhas retas, convergências mil, parelelismos e distâncias equacionadas. uma cidade inédita, me coloca como talento inédito. me perco e me acho na simetria e vastidão que é o espaço racionalizado de belo horizonte. meu mundo sucumbido se reerguendo.

foto:alexandre costa g.

o corredor do meu circuito boêmio-intelectual se faz na rua da bahia. é ela que me leva aos meus cafés preferidos e ao "pelicano" de cada (e todo) dia. no mais, belo horizonte é descoberta, é garimpagem, é viver mais, atravessando a avenida do contorno para aprender como é que se vive de fato.

e... o caos bate à porta da jovem cidade. o trânsito já não facilita, o que é público já não funciona e a intelectualidade mineira vendida ao brasil e ao mundo noutros momentos já se faz rara.

mas a alma de "rosarita" é viva e a felicidade continua sendo vendida a baixo custo. os bares proliferam, a boêmia (vazia, diferente da de drummond, pedro nava, otto, roberto drummond, sabino, henriqueta lisboa, rubião, frança júnior, abgar renault, entre outros) faz a festa em outros endereços. micaretas e baladinhas de sons eletrônicos agitam a cidade. depois, um pastel na "janaína" ou uma lasanha às 5 da manhã no "la grepia" e o país continua o mesmo. como nos textos de dostoievski e baudelaire, o lado podre e torpe da cidade (e seus habitantes) também é "desejado, afirmado, em vez de ser julgado". talvez nisso esteja o encanto e sedução de quem escreve "belo horizonte".

belo horizonte é uma cidade para se viver à margem. a graça de viver aqui é a invenção de um estilo próprio de vida e com ele, um modo de existência inédito, como quem aqui planta sua raiz (nobre roberto said).

"aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado."
(drummond)


estou aprendendo a viver belo horizonte.

mas se essa cidade é caminho, pra onde irei depois? pra onde belo horizonte me levará?

talvez volte pro rio.

saudações ao amigo mateus primo, belorinzontino de sabará-buçu (é assim que drummond chamava sabará), guia turístico, cineasta, que ama essa terra com todas as suas forças.

ao som de "galo e cruzeiro", de vander lee

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