domingo, 5 de julho de 2009

POESIA de presente - Óculos negros


Pôxa, me senti imensamente lisonjeado com um presente que ganhei de um grande amigo. Adoro ganhar presente (e quem não gosta?), principalmente daqueles cheios de significados. Acho que alguns presentes cumprem bem sua função e se fazem bem “presentes” em nossa vida.

Tenho até hoje uma ampulheta que ganhei de uma pessoa muito especial à pelo menos uns nove anos atrás. Já morei em barracão, flat, casa, apartamento, quitinete, pensão... mas onde quer que eu vá, ela sempre tem um lugarzinho cativo na decoração do muquifo que me acolhe.

Tem algumas coisas que só ganham significado de verdade, se forem ganhadas. Você, cansado de esperar que alguém o presenteie, pode até comprá-las, mas nunca será a mesma coisa. É como se déssemos uma oportunidade a alguém de se eternizar em nossa vida. Por exemplo, uma vez dei uma caixa de ferramentas a meu pai. Ele até hoje tem tanto cuidado com ela que parece que a ganhou na semana passada, sendo que isso foi a pelo menos uns quinze anos atrás. Então, fica aí a dica. Se seu pai tem muita ferramenta espalhada, uma caixa de ferramentas é um presente que se eterniza. Possivelmente os netos dele (meu pai) usarão a tal caixa.

Minha irmã tem uma boneca de pano, negra, que comprei pra ela a muitos anos, numa parada de ônibus na estrada de Barbacena, entre o Rio e Belo Horizonte. Quando a dei de presente, ela colocou o nome dela na boneca. Elas dormem juntas até hoje. Taí, uma boneca de pano é outro presente que se eterniza na vida de uma irmã (e deve funcionar também com amigas).

E tem uma série de outros presentes que acabam virando uma espécie de amuleto. Entre os que eu acho mais bacanas estão: caixinha de música, principalmente se for para avó (Perfeito!); terço para mãe católica é ótimo; quadro, pintado por quem está presenteando (claro!) - Na verdade qualquer peça de arte feita pelas mãos de quem está presenteando é de muito bom gosto; cuia de chimarrão, ótimo presente para se ganhar de um amigo gaúcho (Seany, isso não é uma indireta, mas uma direta); chapeuzinho de couro tipo o do Lampião, ótimo presente para se ganhar de um amigo nordestino. (Wall, isso é uma direta); vinho, ótima opção para quem chegou de férias da Argentina, Chile ou Itália; postais e cartas (que inclusive eu adoro receber. Principalmente de amigos que não vejo a muito tempo); programa de museus e teatros espalhados mundo à fora (já ganhei um do Museo Del Prado, em Madri); livros em inglês ou francês, para forçar nosso poligloteísmo. (Uma vez ganhei um “Becket” de um amigo – em francês, claro – que esperou por anos e anos para ser lido. Já consigo ler o prefácio); e o meu presente preferido: um violão. Há séculos que quero um, mas não vou comprar. De tanto esperar, cheguei a comprar um, certa vez, mas ele foi roubado. Não sou superticioso, mas deve ter algo de aviso nesse fato. Pelo não e pelo sim, resolvi esperar mais um pouco.

E um dos campeões de originalidade: um poema. Ganhei um poema do meu amigo Marcos Oliveira. Quer coisa mais eterna que um poema? É muito valoroso um amigo se dá ao tempo de parar, pensar e criar palavras e frases ditas exclusivamente de você. É uma condecoração. O poema se segue abaixo:

Óculos negros
Marcos Oliveira

Ele bem que poderia tirar seus óculos negros e não enxergar o mundo

Deixar de ler “Drummond” para proliferar os pensamentos levianos

Escutar música como quem trabalha,

Deitar cedo como quem não pensa,

Discutir menos metafísica humana e mais “o que tem pro almoço?”

Tentar ser insapiente, leviano, pária e desimportante...

E namorar a mais bela e vazia garota da rua

Escrever como quem nunca leu

Porém este não estaria “souto” das amarras do mundo

e seus óculos estariam quebrados...



Gostei de saber que estou “souto das amarras do mundo”.
Valeu meu caro amigo, pela (bela) homenagem.

4 comentários:

Liv Milla disse...

Eu também espero por um violão de presente...
Mas acho que não devo ser muito querida, porque ganho poucos presentes... hehe... Mas a palhacinha que ganhei no meu aniversário está aqui, linda e ruiva...
Adorei o poema...
Bjos

Nelio Souto disse...

ow liv, claro que você é muito querida sim. imagina!
sobre o vioão, pois é...estamos dando a chance de alguém se eternizar em nossas vidas e ninguém se apresenta né. chato isso.
mas deixa, estar, na hora certa seu príncipe encantado surgirá montado num lindo violão...ops! digo, montado num lindo cavalo preto com um violão na mão...você vai ver só.

beijo grande!

valeu pela visita.

ah! pode passar o recado da cuia e do chapéu do lampião ao wall e ao seany, quando se encontrar com eles?

beijo!

Felipe CARVALHO disse...

Olá amigo! Não ando sumido, o sr. sim, é quem está. Creio que ficou de responder um dos meus e-mails. Mas sem problemas, não estou cobrando. Creio Também que enviei um postal a Jacuri junto com outros que ficaão em Mg também. Ninguém recebeu, creio que você também não, correcto? Não sei o que houve, procurarei (que palavra feia) saber e aviso. O blog assim ficou mais bonito, chamativo. E o conteúdo continua o mesmo: muito bom! PARABÉNS! Grande abraço!

Nelio Souto disse...

ow fiote, não recebi não. é, a um bom tempo que não nos falamos. vou retomar aos e-mails.
fiquei muito feliz pela iniciativa. em algum lugar no passado cheguei a dizer que geralmente quem escreve bem, "mingua" seus versos para nós, seus simples e meros mortais/leitores. na ocasião falei isso exatamente de você.

valeu pelos elogios ao blog.
grande abraço!
parabéns pelas conquistas.
volta sempre.