segunda-feira, 13 de julho de 2009

"companheiro", exposição e teatro

di cavalcanti em "um presente para ciccillo"

o “companheiro” não anda bem. "companheiro" é o vira-lata que o pessoal da joaquim nabuco adotou. eu adotei o pedaço a pelo menos um ano e meio, então já deve ter no mínimo dois anos que companheiro é do pessoal da rua.

companheiro tem constantes ataques epiléticos. toma rivotril e tudo, coitado! dona sheila e seu edson dão a comida, o moça da papelaria o remédio, dose diária. rosa fica a cargo da água e do abrigo. ele vive na porta da loja de empadas. hoje de manhã ele teve um novo ataque. o veterinário disse que não foi nada grave. aplicou uma medicação. “a dose deve ser repetida às 18:00”, advertiu. rosa escreveu a recomendação num papel e pregou na porta. vou lá no horário para ajudar a aplicar. legal que ele foi atendido em domicílio. o veterinário da clínica do lado do salão do pedrinho cuidou dele. "companheiro" mobiliza mais de três quarteirões no bairro.

eu, assim como "companheiro", também tomei a joaquim nabuco como meu universo particular. na padaria, tomo meu desjejum, almoço na dona sheila, a segunda melhor canjiquinha com costelinha do mundo (a melhor é a da minha mãe), lancho a empada da rosa, a melhor empada do mundo. no bar da eliane tem o melhor chorinho de segunda-feira do mundo. por ali corto o cabelo (tenho um personal stylist), malho (e nado), leio minhas revistas (de graça) na banca do jackson, lavo meu edredon encardido (me acompanha a exatos 15 anos) na lavanderia da esquina. e tem sapateiro, casa lotérica, farmácia que entrega sem taxa, papelaria, mercado, feira na quinta...

hoje comprei um tintol no armarinho da chinesa (nunca me lembro o nome dela), pra tingir minhas camisetas brancas que já não estão tão brancas assim. deixo três dias de molho e nada. ah! que falta faz uma mãe do lado.

talvez precise me casar. preciso de alguém pra cuidar de mim.
ou talvez precise é de um aumento pra contratar uma boa empregada.

preciso mesmo é de uma casa.

antes preciso de pagar meu maldito cartão de crédito. a séculos só pago pouco mais que o mínimo. assim que pagar meu cartão alugo um apartamento.
quitinete.
conjugado.

mas e os móveis?

apartamento perto da joaquim nabuco, $ 550,00. não dá.
acho que antes de alugar um apartamento preciso comprar meus óculos. orçamento:$ 395,00.

acho que vou virar hippie.

sábado fui ver algumas exposições. em “lantejoulas do meu tédio” a artista camila buzelin faz um vídeo, onde ela é filmada por uma câmera escondida, numa situação muito constrangedora: ao entrar num ônibus cheio, com um saco de 10 kg de laranjas, o saco se rombe e as laranjas se espalham pelo veículo. caramba! me imaginei numa situação do tipo. o ônibus inteiro se dispõe a catar laranja por laranja. (depois dessa, não compro mais saco de laranja no mercado central quando tiver que voltar pra casa de ônibus). é legal experimentar a sensação de condolência ou indiferença das pessoas diante de uma situação como essa. “o mineiro só é solidário no câncer”. a exposição mostra também imagens onde o desamor é fotografado em espaços públicos. puramente tragicômico.

em “notas de rodapé”, na série “diário cego”, diversas pessoas em várias cidades fotografaram um dia em suas vidas, fazendo coisas normais, como pegar ônibus por exemplo. várias fotos, de várias partes do mundo foram sobrepostas pela artista carolina cordeiro, e formam assim uma nova e única fotografia. o resultado do acúmulo de informações às vezes é apenas uma mancha escura, onde pouco se vê.

em “um presente pra ciccillo”, conheci 48 telas (nanquin em papel, na maioria) que foram dadas a ciccillo matarazzo a 56 anos atrás. entre os amigos que presentearam ciccillo estão antonio bandeira, bruno giorgi, clovis graciano, di cavalcanti, flávio de carvalho, tarsila do amaral, odetto guersoni, entre outros muitos. todos os artistas participaram da bienal de são paulo.

depois das exposições fui ver “a rosa dos tempos”, espetáculo inspirados em alguns textos de lorca. adorei a montagem. adorei terem colocado uma garota no palco tocando violoncelo. adorei a entrada, quando colocaram uma personagem interagindo com o público, ainda na fila. Acho que o pecado maior ficou na voz de alguns atores, que “mineirizaram” muito o texto (se passava onde?). impressionante como um ator ou atriz dançarinos têm uma invejável consciência corporal...acho que todo ator deveria fazer dança.foto:paulo lacerda


depois do espetáculo, fomos jantar no othon e apreciar a vista da cidade (eu, parte do elenco do espetáculo que estou dirigindo e parte da produção. depois falo dele). acabamos eu e rafa jantando num meia-boca da guajajaras e depois um chopinho no meu local de sempre. noite agradabilíssima.

pena ter faltado alguém.

4 comentários:

cabu disse...

Gostei do post!

Nelio Souto disse...

simplesmente não sei o que dizer...

me sinto imensamente lisonjeado por tão ilustre visita.

parabéns pelo trabalho!

volte sempre. é uma honra tê-la por aqui.

Felipe CARVALHO disse...

fiquei curioso agora: qual o local onde o companheiro vive? pelo pouco que descreveu me fez lembrar meu novo lar e paixão: são francisco - alcochete - montijo - portugal.

Nelio Souto disse...

felipe,
a rua joaquim nabuco fica no bairro nova suiça.

"companheiro" vive na porta do "paiol de minas", uma loja de doces, salgados, cereais, ... (entre outras coisas de minas) em baixo de uma árvore frondosa parecida com um pé de manga. ele tem uma cama e vasilhas de água e comida aos pés da árvore. quando chove, se protege na marquise do restaurante da sheila, em frente.

quando você estiver em belo horizonte à passeio (ao menos assim), vamos tomar uma cervejinha lá no chorinho da cláudia (ao lado do "paiol de minas").

abraço!

valeu pela visita e volta sempre.