sexta-feira, 26 de junho de 2009

EU AINDA LEIO POUCO...


Terça-feira assisti à palestra “Jornalismo Cultural e diversidade”, no teatro ICBEU, ministrada por Geane Alzamora. Geane se formou na PUC aqui de Belo Horizonte, fez mestrado e doutorado na PUC São Paulo e hoje é professora numa pós-graduação relacionada a pesquisas de redes midiáticas na PUC Minas.

A palestra foi super interessante e fez com que eu me sentisse um pouco burro. Diversas citações de autores, filmes e livros de que nunca ouvi falar. Saí do teatro e fui direto para a biblioteca procurar alguns dos livros que Geane menciona na palestra. Gosto desses momentos de auto-questionamento, do tipo, “o quê que eu tô fazendo da minha vida?”, ou algo do tipo. Tenho tido o cuidado de não deixar a mesmice e a pieguice tomar conta dos meus dias. Tenho cuidado da minha evolução, e ela passa por essa busca pelo conhecimento. Acho que é através da informação que chegamos ao tal conhecimento. Pensando nisso, elaborei uma reciclagem de férias. Listei alguns livros, alguns filmes, algumas peças, algumas exposições e alguns lugares. Na verdade não quero férias. Resolvi também estudar um pouco de Teorias do teatro moderno. O teatro me faz muito bem, seja lendo ou interpretando.

A palestra foi aberta com o filme Cité-Soleil, nome do bairro pobre de Porto Príncipe que se tornou símbolo da violência do Haiti. O filme é muito bacana e legal que assisto logo por esses dias que tenho me aproximado um pouco mais da afrocultura. Diria que estou vivendo um momento a la África. Tenho descoberto coisas muito bacanas, ouvindo músicas regionais africanas, pinturas carregadas de simbolismos e descobri as poesias de Agostinho Neto. Publico aqui um pequeno trechinho de "Criar":

Criar
[trechos]
(...)
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
(...)
Criar criar
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar amor com os olhos secos.
(...)

Geane tem uma linguagem, a meu ver, bastante rebuscada. Em alguns momentos, por mais que eu me esforçasse, não consegui fazer uma conexão lógica com algumas passagens de seu discurso. Constatei que a comunicação tem criado uma linguagem muito fechada quando na verdade deveria justamente ir de encontro à democratização da comunicação. Os médicos e os advogados fazem muito isso. Imagina que eu que sou estudante de comunicação “boiei” em alguns momentos...o que dizer então de pessoas que não têm com os estudos da comunicação o mínimo de intimidade? A lição disso tudo é que as coisas, na prática, são bem diferentes do que parecem ser. Informação é privilégio, infelizmente, e jornalista não muda o mundo. (Mas acho que jornalista pode mudar o seu próprio mundo. Na verdade não precisa ser jornalista. Qualquer um pode mudar seu próprio mundo.)

Na palestra foi citado Diderot (1713-1784) que foi quem criou a crítica teatral e foi Balzac (no Brasil Machado de Assis) que estreou nos antigos folhetins, seus textos em séries, espécie de “Caminho das Índias” da época. Geane falou do “A sangue frio” (In Cold Blood) do Truman Capote que eu ainda não assisti, falou d’O livreiro de Cabul “e do” Eu sou o livreiro de Cabul “, que eu não li, (entende por que disse ter me sentido um pouco burro?) e quando já me preparava para sair do teatro por que ela nunca acertava nada que eu já tivesse lido ou assistido, ela citou a revista Piauí. Eu sempre leio a Piauí. Então descobri que não estava numa palestra de cientistas de Oxford.

Minha alegria durou pouco quando ela citou ”A Saga dos Cães Perdidos“ como leitura obrigatória a todo e qualquer estudante de jornalismo. Eu não li. (Será que devo mudar meu curso para Educação Física?)”.

E citou ainda o livro “A pré-história do samba”, resultado de uma pesquisa que durou mais de 20 anos, “Cidades invisíveis” do Ítalo Calvino e o filme “Os doze trabalhos de Hércules”, todos territórios ainda não desbravados por mim.

Embora tímido no início do evento, depois de uns quarenta minutos, disparei a fazer perguntas, algumas respondidas, outras apenas comentadas (por não terem respostas) como "a mídia faz o público ou o público faz a mídia?" Vai saber...

Na saída fui entrevistado pelo Vitor Hugo, para o Contramão. Tremi igual a vara verde pra responder “O que é cultura?”. Gaguejei e só saiu asneira. Nunca tinha respondido (ou tentado) responder a essa pergunta. O que é cultura? Eu bem queria saber...Alguém se habilita?

Bom, termino esse post com a frase emblemática "Só sei que nada sei", do tão quanto emblemático filósofo Grego, Sócrates. Esta frase me consola, já que com ela descobri que eu e Sócrates compartilhamos da mesma idéia. Enquanto todo mundo sabe tudo, eu e Sócrates preferimos assumir nossa ignorância, como sendo uma posição humilde e simplista diante do saber. Arrisco dizer que é preciso admitir que não se sabe, para então aprender. Saber nos limita, esmorece nosso aprender. (Acho que criei uma frase bacana).

2 comentários:

Liv Milla disse...

Relaxa, meu amigo!!!

NINGUÉM sabe tudo! Quem diz que sabe, sabe menos que nós, porque se acham inteligentes sem assumir sua arrogancia...

Você tá o que? No terceiro período? Não é obrigado a ler todos esses livros logo no primeiro período... O mais importante é exatamente isso que você já faz: correr atrás do prejuízo... Não tenha pressa!

Tem N livros que eu tenho vontade de ler, mas por um motivo ou outro ainda não pude (Eu sou o livreiro de Cabul, inclusive)... nem por isso sou mais ou menos inteligente!
Olha os anos de experiencia na carreira que ela tem... olha o seu... É a mesma coisa de eu querer me comparar à Fernanda Montenegro ou à Julia Roberts...

Quanto à pergunta... cultura pode ser tanta coisa... Às vezes chamamos alguém de "sem cultura" só porque esse alguém gosta de pagode ou funk, mas nos esquecemos que isso também é uma forma de cultura... então, eu chego a conclusão de que qualquer resposta definitiva à essa pergunta seria equivocada... A cultura americana é bem diferente da nossa, assim como a europeia, africana... embora todos sofram influencias... Cada povo tem uma cultura, uma forma de ver a vida e o mundo... ;)

Continue estudando... continue escrevendo... continue lendo a Piauí... Leia também a Bravo!, a Caros Amigos, entre tantas outras que valem a pena... só não leia a Veja... haha!

Falando em jornalismo... o que você achou desse palhaçada de fim de diploma???

Bjos

Nelio Souto disse...

Ótimo comentário Liv. Voltei a me achar inteligente.

Gostei do que escreveu sobre cultura. Eu bem que poderia ter pensado nisso, mas na hora que a luz bateu no meu olho e ouvi o "gravando", não consegui pensar em nada.

Sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalista para exercício da profissão, sinceramente, acho que muda pouca coisa. Vi pessoas desistindo do curso depois da notícia e acho isso um exagero. Um bom curso, numa boa faculdade, ajudará (acho que "apenas" uma universidade não forma um jornalista) na composição de um bom profissional de comunicação e isso pesará na hora de disputar uma vaga.

Agora, independente disso, acho uma tremenda falta de respeito e uma decisão arbitrária do supremo. É desvalorizar sim a classe de jornalistas. S

em desmerecer os cozinheiros, mas comparar o exercício do jornalismo com cozinhar, é um tanto descabido, não acha? Ainda mais num país como o nosso, onde a popolação é extremamente influenciada pela mídia. O "PÂNICO na TV" tem uma audiência tremenda, por exemplo, e o próprio "CQC", que parecia ter entrado no ar com uma proposta bacana, pra mim, só muda o canal e o nome, mas as palhaçadas são as mesmas do tal PÂNICO.

Nossa TV aberta é muito ruim, e os responsáveis disso tudo é a mídia (e os cozinheir...ops! desculpa, os jornalistas, que se vendem a ela).

Agora já pensou se o tratamento dado ao curso de jornalismo for o mesmo dado ao curso de gastronomia? (E eles "tratam" do curso de gastronomia?)

Lamentável?

Beijo grande!

Valeu pela visita.