domingo, 31 de maio de 2009

LITERARTURA - Lançamento de "O Santo Sujo – A Vida de Jayme Ovalle"


Fui ao lançamento de "O santo sujo – A Vida de Jayme Ovalle", na Livraria da Travessa. A obra do jornalista mineiro Humberto Werneck nos apresenta a biografia do "poeta sem poema", o compositor Jayme Ovalle.

Ovalle foi amigo de grandes nomes, entre eles Gilberto Freyre, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Otto Lara e Manoel Bandeira. Compôs cerca de 33 músicas e sua composição mais famosa "Azulão" contém versos de Manoel Bandeira.

O "poeta sem poema" nasceu em Belém, não teve educação formal e segundo Werneck chegou a ser expulso do colégio Marista por mau comportamento. Werneck diz ainda que escrever sobre Ovalle não foi fácil. O trabalho de pesquisa durou mais de dez anos e disse ter encontrado informações mais ricas entre pessoas simples que passaram pela vida do compositor e não nos relatos da família, como era de se esperar. "Ovalle era boêmio, frequentador do baixo meretrício. Tomava pelo menos uma garrafa de Whisky por dia."

Quero agradecer imensamente ao meu caro colega Marcos Oliveira por ter me mandado o poema abaixo, onde Vinícius escreve para Ovalle.

A última viagem de Jayme Ovalle

Ovalle não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor do Ovalle à vida.

E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar – ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!

Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria.

A cada vez que a Morte, a sério
Com cicerônica prestança
Mostrava a Ovalle um cemitério
Ele apontava uma criança.

A Morte, em Londres e Paris
Levou-o à forca e à guilhotina
Porém em Roma, Ovalle quis
Tomar a sua canjebrina.

Mostrou-lhe a Morte as catacumbas
E suas ósseas prateleiras
Mas riu-se muito, tais zabumbas
Fazia Ovalle nas caveiras.

Mais tarde, Ovalle satisfeito
Declara à Morte, ambos de porre:
– Quero enterrar-me, que é um direito
Inalienável de quem morre!

Custou-lhe esforço sobre-humano
Chegar à última morada
De vez que a Morte, a todo pano
Queria dar uma esticada.

Diz o guardião do campo-santo
Que, noite alta, ainda se ouvia
À voz da Morte, um tanto ou quanto
Que ria, ria, ria, ria...


in Para viver um grande amor (crônicas e poemas)
in Poesia completa e prosa: "A lua de Montevidéu"

Assim Vinicus definiu o amigo Ovalle: "é o poeta em estado virgem. A mais bela crisálida de poesia que jamais existiu desde William Blake. É o mistério poético em toda a sua inocência, em toda a sua beleza natural. É vôo, é transcendência absoluta. É amor em estado de graça." (apud SABINO, Fernando, "Fragmentos de uma suíte ovalliana". Jornal do Brasil, 15.07.1974.)


O bate-papo sobre a obra de Werneck faz parte do Projeto Café & Artes, uma parceria entre o Centro Universitário UNA e a Livraria da Travessa. A cada semana um convidado nos dará o ar da graça no espaço. Honrável iniciativa da UNA.

Humberto Werneck nasceu em Belo Horizonte e vive hoje em São Paulo. Já ganhou o prêmio de Literatura da Associação Paulista de Críticos de Artes com "O santo sujo".
Passou pelo Suplemento Literário de Minas Gerais, Jornal da Tarde, Jornal da República, Veja, Isto É e Jornal do Brasil. É autor de ‘O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais’ e ‘Chico Buarque: letra e música’. Publicou também o volume de contos ‘Pequenos fantasmas’

Para saber a programação do Café & Artes e acompanhar os próximos encontros basta entrar em contato com a livaria pelo telefone (31) 3223-8092 e UNA (31) 3508-9133.

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