quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ESCREVO, LOGO VIVO


Voltei a passar um bom tempo sem escrever e novamente tenho sido questionado sobre o motivo de não fazê-lo. Infelizmente ainda não elaborei sequer uma resposta plausível, até mesmo por acreditar que ela não exista.
Então me pergunto: Por qual motivo escrevo? Sem respostas.
Quando digo sem respostas, entenda-se sem respostas convincentes, seguras, objetivas. Mas se me permitirem responder ao vento, aí sim, sei porque escrevo e também por que não o tenho feito.
Escrevo como quem vive.
Como quem, porque vive, chora. Mas também ri, embora por vezes, riso frouxo e amarelo.
As duas maiores imensidões do mundo são azuis. Céu e mar azuis. Azuis como os olhos de alguém que amei um dia. Pela capacidade de juntar essas palavras, escrevo.
E como na vida tudo se resume em falta e desejo, escrevo falta, desejo, sonhos e frases soltas.
De tudo que sinto, só algumas frases são minhas. Mesmo se não as criei, podem sim, serem minhas. Não há nada que nunca tenha sido dito, cantado, sofrido. Então escrevo para que tenha coisas minhas, mesmo que interpretadas de coisas universais, como dor ou amor.
Se às vezes não escrevo é por que não me sobra tempo. Não tempo para escrever. Tempo para viver. Quando se vive, tem sempre um texto pronto em algum lugar de lugar nenhum. Se me lembro que ontem à noite, cheguei em casa, abri a geladeira e chupei um gelo, vivi. Se não me lembro do que fiz hoje de manhã, então não houve vida no que fiz.
Não quero uma vida em branco, esquecida. Quero ser lembrado pelo amor que dediquei - correspondido ou não -, pelas palavras de consolo que proferi, pela intensidade das emoções que transpareci, pela pessoa que fui: amor em cada célula do corpo, em cada segundo de respiração. Assim sou eu.
A vida é sempre mais do que eu imagino que ela seja. As descobertas vão criando um tipo de alavanca que vai me movendo, me levando morro acima, de onde posso ter uma bela visão de um mundo que muitos não conhecem. Nem eu conheço, a bem da verdade.
O escape das desilusões que vivo é me dar bem com o que não conheço, até desistir de conhecer a tal coisa, fato ou pessoa que me iludiu; até que ela se torne de vez desconhecida e perdida na bagunça que é o tempo passado. Não se arruma o tempo que passou e por isso é melhor passar um tempo arrumando o hoje. É o que tenho feito. Colocado cada coisa em seu devido lugar. Meu lugar é aqui, comigo mesmo, com meus livros, meus sonhos, meus quadrinhos do Tex e ouvindo Baden Powell.
Essa coisa de tentar explicar o que é a vida, entendê-la, decodificá-la não existe. A vida é como você a vê, a vive. Fazer de cada momento um acontecimento triunfal é um dos segredos para se viver de forma intensa e aprazível. Eu tento e às vezes não preciso de muito esforço. É natural achar que aquele almoço em família foi um dos maiores acontecimentos da vida, porque não sei quando o terei novamente, se o terei. E um amor que passou? Se fui eu quem o mandei embora, coitado de mim que não estava preparado para vivê-lo, mas se ele escolheu ir, mas me deixou paz, me basta porque paz é tudo de que preciso para viver. Remorso mata. Escolher ir embora sem poder voltar deve ser arriscado quando se sai de um porto seguro, de um cantinho quente na cama. Amar é competência e quem não sabe, sofre.
Mas o ano é novo e novas são as expectativas. Nada melhor que começar o ano com celebrações. Meu final de ano foi maravilhoso e espero que continue sendo. Aprendi algumas coisas sobre ausência e falta e um poema de Drummond me serviu de cartilha:
“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”

Drummond me adoça a vida, sempre que ela teima em amargar. O resto é o sentir genuíno, a força pulsante, comum a cada um, o bem-estar que cada manhã nos sopra no rosto. E se chover, que a alma e ruas sejam lavadas. Gosto de chuva porque ela também me fala à alma.
Estou imensamente feliz. A vida me tem sido muito generosa.

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