quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Deixa da Chuva



Esse vento soprando anuncia chuva.
Não sabia que aquela árvore fazia esse barulho de estouro lançando sementes ao ar.
Parece música.

Esse vento é de chuva
eu sei
Essa música é de vida
eu sei
Essa chuva é de lágrima
eu sei
Essa lágrima de tristeza?
-não sei.

Corre rapaz, senão a chuva te pega.
A lágrima não te molha mas a chuva não te alivia.

Chora agora
por que agora ninguém te verá chorar.
Não chegarás em casa um homem chorão
só um homem molhado de chuva
por que homem,
homem não chora.

Nelio Souto

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Há vida inteligente na "Balada"

Resolvi ouvir os conselhos da Marcella e sair um pouco de casa. Marcella me receitou "ver gente sábado à noite depois da refeição, em doses confortáveis", para não correr o risco de uma superdosagem me levar à uma possível intoxicação. As reações colaterais poderiam ser desagradáveis e ainda fragilizar minha saúde física e mental.
Tive certa resistência à recomedação terapêutica de minha fiel amiga. A considerar que ela está à quilômetros de distância de mim e não poderia me ministrar a dosagem da droga pessoalmente, fui um tanto relutante à idéia. Ver gente? Será que me fará bem? Marcella luta para que eu não me torne de vez uma pessoa nada sociável. Não é bem isso. Apenas não me sinto mais muito à vontade em determinadas "baladas" mas como a companhia influencia muito, penso que ao lado de pessoas queridas, qualquer lugar acaba por se tornar frequentável, então me embarquei.
Era aniversário da Mandica. A opção e a ocasião eram uma boa pedida. O local escolhido foi uma casa que tinha Samba de Raiz. Agradabilíssimo ambiente e a banda não deixou à desejar. Compareceram algumas pessoas de Jacuri. Me diverti. Não! Não beijei ninguém. Sempre quando alguém me pergunta se saí, pergunta quantas eu beijei. Beijar várias na mesma noite era mais bacana quando eu tinha, sei lá, uns quinze ou dezesseis anos. Não quero parecer antiquado mas acho que passei dessa fase. Não tenho auto-estima o suficiente para tomar trinta e dois "foras" numa noite. Tudo isso só para, ao final contabilizar um saldo de cinco bocas beijadas e minha vidinha continuar a mesma, sem nem um tefone trocado? Não, obrigado. Definitivamente não sou desse planeta.
Não acho que vou encontrar a mulher da minha vida numa balada, embora talvez isso seja possível,(quase deu certo com um amigo que por pouco não me fez acreditar que aconteceria comigo). Algumas Colombinas já me fizeram um "(...)pierrot infeliz(...)" mas minha folia não será apenas uma simples folia. Sou uma pessoa. Saio para me divertir. "Cabeça, tronco, membros, e coração..."
A noite seguiu agradabilíssima. Sempre reclamando que não conhecia aqui em Belo Horizonte uma casa com um bom samba e chorando saudades do Rio Scenariun, acabei por ser agraciado por, além de boa música, boa companhia. Ao som de "Tonga da Mironga do kabuletê" eis que avisto um grupinho de três "belezuras". Mulheres com cara de inteligentes. Acho essas as mais, mesmo que ao afinal você descubra que não são. As mulheres detêm um fascínio que parte de onde elas bem entenderem. Têm esse poder, embora poucas sabem que o têm. A pista inteira "chegaram nelas" mas nem sequer um beijinho no rosto conseguiram. As garotas eram enfáticas no seu "não" distribuído aos quatro ventos.
Pensei, pensei e...cheguei. Não cheguei chegando, como faziam todos. Cheguei cortejando. Não queria agredir. Não era um animal procurando uma fêmea para acasalamento. Era um cara poeta, meio "alto" que via entre o grupinho, não uma presa, mas uma companhia. A imagem de garotas fúteis, metidinhas à besta, esvaiu-se. Eram três amigas de infância que resolveram sair pra dançar um bom samba, se divertir e... não beijar ninguém. Simples assim. Qual a dificuldade em entender isso? Por que estavam alí dançando, acaso estaria implícito que estariam à procura de alguém? Só queriam dançar. Não queriam saber de ninguém. Quiseram saber de mim. Foram simpaticíssimas comigo. Uma advogada, uma bióloga, uma, acho que devo chamá-la de "comunicadora". Discutimos valores, relações, poesia, teatro...
Em outra oportunidade deixei aqui um atento à uns amigos que se prestam a reservar algumas horinhas da semana para uma pelada, uma cervejinha e um prato sugestivamente fraterno(feijoada, vaca-atolada, feijão tropeiro,...).
Dessa vez o atento honroso vai para as três garotas simpáticas e inteligentes do samba de sábado. As garotas reservam um sábado à noite à elas mesmas, para juntas dançarem, rirem, baterem papo, se divertirem e nada mais, (salvo neste último sábado, pra ouvir meus longos e Hamletianos discursos).
Que conservem essa doçura, essa sensibilidade. Esse mundo maluco já esqueceu, se é que lembrou, que existe atitudes nobres, como "fazer amigos", "estar amigos", "relembrar amigos", "ser amigos."
Beijo grande à vocês.
Infelizmente não peguei telefone.
Se ao menos tivessem gravado meu nome, certamente me encontrariam por aqui...
Mas valeu.
Já me basta saber que em algum lugar dessa cidade, vocês existem.

Nelio Souto