segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Teatro - Fala comigo como a chuva


Minha programação de final de semana foi alterada, quando uma professora – a quem estimo muito, diga-se de passagem – chegou em sala de aula aplicando um trabalho que implicaria em assistirmos a uma peça de teatro. Inacreditavelmente, houve relutância por parte de alguns presentes quanto à proposta, fato que eu entenderia perfeitamente se estivéssemos num curso de engenharia - que não é o caso - então confesso ter ficado surpreso. Não que engenheiros não fossem ao teatro (abomino preconceitos), mas, perdoem-me os insensatos e apóiem-me os democráticos, o universo teatral é uma cartilha para estudiosos de uma faculdade de comunicação.
Um comunicador fala a quem?
O teatro desnuda a alma humana. Acompanhou desde tempos primórdios, a evolução do homem, a tal ponto que se tornou parte intrínseca da sua história.
A origem do teatro refere-se às primeiras sociedades primitivas que acreditavam nas danças imitativas como favoráveis aos poderes sobrenaturais para a explicação de fatos indispensáveis à sobrevivência. Seu berço foi os festivais anuais que consagravam Dionísio, deus do vinho e da alegria. A arte milenar chega até a nossa época significando muito mais que lembranças de festivais gregos. Passa a ser uma manifestação universal de cultura, em seu mais amplo sentido.

Embora minhas aulas de História do Teatro com a ilustre professora Elza de Andrade, me tenham rendido uma nova visão de mundo, deixemos esse assunto para ser tratado em momento mais oportuno e voltemos à tentativa de explicar por que o teatro é uma ferramenta indispensável na comunicação social e por que foi uma ótima idéia, uma professora - intencionalmente ou não - ter nos obrigado a ir ao teatro na fria noite de domingo.

Na verdade, pensando bem, resolvi abrir mão de uma resposta pronta sobre a importância do teatro, para, ao invés de impor teorias pessoais, compartilhar a satisfação que o espetáculo me causou. Quem sabe também, ao invés da antipatia dos não-simpatizantes da arte milenar, eu aguce deles, uma certa curiosidade com relação ao espetáculo que assisti?

Depois de um café quente, batendo queixo, tendo à mão, a mão suave de minha namorada, me sentindo metade essencial da composição de casal mais feliz do mundo, atravessamos a cidade, agasalhados quase que à parisiense, rumo ao Horto, para assistirmos à Fala comigo como a chuva, espetáculo baseado na obra de Tennessee Williams.

Pensei em não ir. Passear no shopping seria mais aconchegante. Ou não. Qualquer programa em final de domigo chuvoso parece ser pior que ficar em casa debaixo do edredon, assistindo a um bom filminho. E pensar que depois de domingo, vem segunda de luta esmorece qualquer ser humano. Mas também, qual dia não é de luta?

Na fila longa e demorada encontrei alguns amigos. Fiquei feliz, também por ter encontrado alguns amigos, mas principalmente, por que, ao que me parece, mais gente tem ido ao teatro.
Entramos e nos sentamos. Terceira fileira. Eu sempre gosto de me sentar, no máximo na segunda, mas à frente da primeira, tinha uns assentos muito próximos do que seria o palco e pareciam estar ali estrategicamente para acomodar cobaias para serem alvo de piadinhas baratas, tirada certa dos besteiróis que têm invadido Belo Horizonte.
Quando o público entra e se acomoda, a atriz já está em cena, taciturna, de camisola, com uma garrafa de água, que de tempo em tempo, leva à boca em demorados goles. Depois entra o ator, expondo músculos, desnecessariamente, mas depois entendi que a proposta de auto-exposição tinha um certo sentido.
O cenário era simples e isso pouco importava. Não consegui fazer uma conexão lógica entre o painel ao fundo e o texto, embora o painel, abstrato, tenha me fascinado. Ficaria bem na minha sala.

Tânia tinha o codinome de Caroline Turner, personagem dos romances que lia e na maioria das vezes, sua única companhia. Enxerguei angústia e solidão em Tânia e de igual forma, em Caroline. Enxerguei um mundo de sensações no texto.

Do painel começa a escorrer uma água que fazia barulho de chuva. A água escorria para o palco-piscina e a água subia à medida que aumentavam os ataques de Tânia, bem como sua angústia e a sensação de mal-estar do público, ao ver Tânia rolando na água fria, de roupas, da qual ela vai se despindo à medida que a água sobe e o palco-piscina enche.

Solidão.
Tânia planejava passar o resto dos dias anônima num quarto de hotel. Teria ela, vez ou outra, apenas um cinema, um barulho de chuva, livros. Os poetas lhe falariam e não lhe pediriam respostas de nada. Jornais, não leria.
Assim seria por vinte e cinco ou cinqüenta anos. Não haveria tempo. Não notaria os cabelos brancos.
Notaria ele, apenas, de mão estendida, convidando à uma dança, alegre, viva. Ele presente, presente também se fariam sonhos. O amor era sonho.
Ela falava em banho quente preparado por uma criada que lhe contaria o que o neto comera no jantar: mingau de aveia.
Só mesmo a solidão para nos mostrar o sentido das coisas simples.
A solidão é irremediável.
As músicas do espetáculo foram muito bem escolhidas. Deu vontade de procurar a produção e pedir a lista das músicas para baixá-las depois e ouví-las no reapeat.
O grand finale foi a ducha fria que Tânia toma, ao final do espetáculo. O chuveiro, instalado a metros de altura, faz com que cada gota d´água, mais se pareça a uma lança afiada, que corta o rosto da personagem. Quem segurou as lágrimas até este momento, se descontrola apartir de então. Foi a cena mais forte, a meu ver.

Numa análise geral, gostei muito do espetáculo. Me emocionei. Me fez pensar.
A idéia de espaço alternativo, de encenar dentro de uma espécie de banheira, me causou - o que imagino ter sido a intenção da montagem – uma sensação de angústia e desconforto. A única coisa que me pareceu descabida e se tinha um sentido, eu não o decifrei, foram os golpes esquisitos, parecidos com karatê que o personagem do cara, por mais de uma vez arrisca. Achei completamente desnecessário.
A estrela da noite, sem dúvida alguma foi Sammira, que compôs uma personagem, a meu ver, completa. Os cabelos avermelhados, molhados, uma tatuagem cabível, linda, voz forte ou frágil, conforme o texto pedia.
Tânia era misto de sensualidade e ingenuidade.
Voltei pra casa debaixo de chuva, e se me permitem o desabafo, talvez ela tenha me falado.

Nelio Souto

4 comentários:

matheusbh disse...

Apesar de assistir somente á uma peça que por sinal eu recomendo á todos:"Um espirito baixo em mim" Simplismente perfeito recomendo á todos.
Mais à respeito do teatro considero plausivo, vale ressaltar a atriz (SAMMARA)que na minha concepção merecia um papel em uma novela das oito hehehehe
Ironia, tristeza,raiva tudo ela fez muito bem diga-se de passagem,todavia,concordo com o Nelio à respeito das lutas de karaté hehehehhe totalmente desnecessaria mas serviu apenas para dar um clima de desconcentração.
Um ponto chave que eu achei muito bom foi ao entrar no teatro me deparar com a atriz em cena issu pra mim foi algo inusitado.
Recomendo à todos á assistirem pois a peça trabalha muito com o corpo e vc fica fixado insistemente na peça.

Liv disse...

Olha...
Com chuva, sem chuva... Teatro é sempre a melhor opção para salvar um domingo (a não ser, em casos raros, que você resolva assistir a um besteirol sem pé nem cabeça... isso pode tornar seu domingo ainda pior!)!
Ficar agarradinho no cobertor com uma boa companhia e um bom filme também é uma boa, mas dá aquela sensação de que o dia passou e você não fez nada né... ou não... rsrsrs... só quem tem namorado (a) pra saber... Eu, infelizmente, ando meio por fora desses assuntos... :s... Buááááááá!!!

Gostei da sua crítica da peça, deu até vontade de assistir...
Quanto ao homem sem camisa... se ele for sarado e gostoso já valeria a peça inteira!!! kkkkkkkkkkkkkkkkk..... (Brincadeirinha, é só pra descontrair... rs)...

Não posso comentar um post seu sem falar alguma besteira né?! Senão não tem graça! kkkkkkkkk...

Bjão seu sumido!

Liv disse...

Aaaaaaaaaaaah! Já tava me esquecendo o mais importante!

Nem os jornalistas estão livres de PRÉ-CONCEITOS! Infelizmente, esse é apenas 1 dos milhares defeitos de fábrica que o ser humano tem! Até os atores tem (o que é um grande paradoxo, pois não deveriam ter, mas... existe de tudo nesse mundo...)! Então, acho que a professora fez bem em fazer obrigatória essa ída ao teatro, pois todos nós, seres humanos (jura que eu também sou isso??? Aff!), temos que aprender a lidar com as diferenças e aprender a conviver com aquilo que não gostamos!
Eu ODEIO CIGARRO, mas ninguém me pergunta se pode fumar ao acender um cigarro na minha frente! É irritante, mas temos que guardar nossos coração para as grandes alegrias (isso eu ainda preciso aprender como....)...
Bem, acho que é isso!
Que os seus colegas, futuros jornalistas, aprendam a respeitar o teatro, como serão obrigados a aprender que jornalismo não se faz (ou pelo menos não deveria ser feito, já que muitos jornalistas esquecem a regra!) em primeira pessoa!
Beijos...

Nelio Souto disse...

Liv, Falou tudo.
Acho que atores e jornalistas estão sempre muito pertos.

A peça é muito bacana e caso ela não vá para o Rio, aconselho ler o livro. Eu não li mas Mara, uma amiga que leu, disse que o livro é ainda mais intenso que a peça.
Fica aí a sugestão.

Beijos!