terça-feira, 8 de julho de 2008

Quinta, 20:00, na "GERMANO"

"Quando eu era pequeno minha mãe me aconselhava fazendo uso do provérbio: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. Não consigo avaliar se consegui obedecê-la, mas, por outros motivos, troco de amigos.
Cheguei à minha idade bem decepcionado com minhas amizades. Como reluto para não tornar-me cético, busco andar ao lado de verdadeiros amigos; porém, isso não é fácil.
Através da internet, consegui reencontrar um companheiro bem antigo, que sempre tive como grande amigo. Eu havia perdido contato com ele há alguns anos. Redigi uma mensagem cheia de afetos e saudade e supliquei-lhe que retomássemos os vínculos.
Acrescentei que tinha saudade dos velhos amigos e que a pouco tempo havia feito a mim mesmo a promessa e o desafio de convidar um amigo para jantar ao menos uma vez ao mês. Disse também que em casos de amigos "sumidos" como ele e decerto, ocupados, bastaria um cafezinho para que eu me sentisse com a sensação de missão cumprida. Ele respondeu agradecendo minha “carta eletrônica”; e foi logo propondo que, daquele dia em diante, trataríamos de estreitar nossos laços novamente. Quase chorei. A última coisa que eu esperava dele era essa pré-disposição em voltar a sermos grandes amigos, marcando já o jantar para a próxima semana.
Mas mesmo com tantas decepções insisto em garimpar bons amigos.
Quero ser amigo de quem valorize a lealdade. Quero acreditar em amizades que não se intimidam com censuras, que não retrocedem diante do perigo e que não abandonam na hora do apedrejamento. Amigos não desertam.
Quero ser amigo de quem eu não precise me proteger e que não tenha medo de mim. Não creio em companheirismos repletos de suspeitas. Os grandes amigos são vulneráveis. Conversam sem se policiar, rasgam a alma e sabem que seus segredos jamais serão lançados em rosto ou expostos publicamente.
Quero ser amigo de quem não se melindra facilmente. Por mais que tente, continuo tosco; magôo com meus silêncios, com minha introspecção e, muitas vezes, com meus comentários ácidos e impensados. Portanto, preciso de amigos que tolerem minhas heresias, minhas hesitações e meus pecados. Busco amizades que agüentem o baque das minhas inadequações; que sejam teimosos.
Quero ser amigo e não um mero cúmplice de vocação. Não tolero manifestações artificiais de coleguismo. Para mim, nada é mais ridículo do que proclamar que somos “amigos”, para depois sair criticando uns aos outros com farpas venenosas.
Quero ser amigo de quem não contenta em re-encaminhar mensagens re-encaminhadas de power-point. Também não gosto de cartões de aniversário com frases prontas e com obviedades.
Acredito que os verdadeiros amigos têm o que repartir e que sentem necessidade de expressar seus sentimentos, suas dúvidas e principalmente seus medos e desesperos. Amizades superficiais são mais danosas para o espírito do que inimizades explícitas.
Quero ser amigo de quem não é muito certinho. Não tolero conviver com quem nunca tropeça nos próprios cadarços, que nunca teve sonho erótico e que mantém a língua sob controle absoluto.
Vez por outra, gosto de relaxar, rir do passado, sonhar maluquices para o futuro e conversar trivialidades. Quero amigos que se deliciem em ouvir uma mesma música duas vezes para perceber a riqueza da letra; de comentar o filme que acabaram de assistir e o último livro que leram; e numa mesma conversa, elogiar e espinafrar políticos, pastores, atores, árbitros de futebol. Como é bom chorar com poesia!
Quero terminar meus dias e poder dizer que, mesmo descrendo das ideologias, dos sistemas econômicos e das instituições religiosas, cri em verdadeiras amizades porque tive bons amigos.

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