domingo, 17 de janeiro de 2016

À partir do tempo ser, foi-se


As coisas são, e quando se vê, não são mais. 
A necessidade de o tempo passar, de o dia transgredir, de a superação acontecer, leva com pressa o momento, coisa que não volta, que não volta porque não existe mais, 
à partir do tempo "ser", foi-se.
Lembrança. Lastro do que ficou em nós, e amostra do que foi. 
Não tem de volta, mas abastece. Lembrança é uma esmola do que foi. Uma migalha para saciar uma fissura sem tamanho, sem condição de dar conta.
E se volta? É outra coisa. Cópia barata do que foi. O verbo tem seu tempo, e não perdoa o que não é. Fica o que foi.
Ano, meses, semanas, dias. Talvez ainda ontem tenha sido aquela prece de bem querer. 
Talvez ainda ontem a promessa de quem não tinha tanta fé, mas arranjou. 
Talvez ontem a promessa de se eternizar em algumas vidas. A poesia produz tantos ingênuos.
E o tempo de poesia acabou. Engole o choro, apruma o corpo e segue. De vez em quando lhe é permito ouvir "Ouro de tolo" e se emocionar, contidamente, discretamente. Lhe é permitido ser, existir já é querer demais. Coloque-se no seu lugar. 






quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Feliz Livro Novo!


Me despeço de 2015. Um ano difícil, com muitos desafios, alguns dos quais não consegui vencer. Quanto mais o tempo passa mais me dou conta de que a vida é uma eterna re-significação. De tempo em tempo é preciso mudar o foco, mudar o caminho, trocar o time, virar a mesa. Algo parecido com a teoria do caos. São nos momentos mais difíceis que as coisas mudam, que novas possibilidades surgem. A bagunça que toma conta da nossa vida às vezes antecede uma virada, motiva a procura por uma saída urgentemente necessária.

Entre promessas e simpatias, o fato é que 2015 ensinou muita coisa. A perda do meu avô ensinou que o que fica quando partimos é o que construímos ao longo da vida. A instabilidade econômica e política que o país atravessa ensinou que é preciso poupar e que o cenário da política nacional é péssimo. A distância de alguns amigos ensinou que grandes amizades também podem ser frágeis, ou então que podiam nem ser tão grandes assim. E teve muitos outros ensinamentos que verdadeiramente fizeram de mim uma pessoa melhor. 

E assim, depois da análise de 2015 é preciso repensar. Repensar a gestão dos recursos financeiros, a equipe, a energia (tanto as fontes de descarga quanto as de recarga), os planos simples, os planos mais complexos e audaciosos, o planos que não estão nos planos. Há momentos em que o plano é não ter planos. É preciso repensar nosso papel no mundo. 

E para 2016 não quero muito. Quero o que me cabe. Também não tecerei uma lista interminável de metas a cumprir. Para mim, esse ano é de simplicidade. Quero pouco que me seja suficiente, para depois pensar no depois. Então peço disciplina, discernimento e sabedoria. É preciso manter as gavetas arrumadas e a agenda em dia. É preciso acordar cedo para o dia render mais. É preciso saber dizer não e recusar trabalho. É preciso voltar cedo para casa, em tempo de se jogar no sofá. É preciso ter em si mesmo um grande aliado, na verdade o maior deles.

Que venha então um ano novinho, cheio de possibilidades. Um livro em branco que receberá nossa melhor história, contada da melhor maneira. Aguardo ansioso por esse que será um dos melhores anos da minha vida.

Feliz Livro Novo!


quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Da série "Não deixe o blog morrer", esse sou eu


"Sou pessoa de dentro pra fora. Minha beleza está na minha essência e no meu caráter. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje... Amanhã, já me reinventei. Reinvento-me sempre que a vida pede um pouco mais de mim. Não me dôo pela metade, não sou meio amigo e nem quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Sou pessoa de riso fácil... e de choro forte!"

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Jacuri, Coluna, Frei, Semana Santa e outras relevâncias



Foto: Irléia Nunes 

Gostaria de registrar minha passagem por Jacuri, Coluna e Frei Lagronegro nesse feriado. Aproveitei os festejos da Semana Santa para prestigiar as atividades católicas/culturais de Jacuri, e fiquei muito feliz ao ver o comprometimento do pessoal com todos os preparativos das comemorações. 

O que mais me chamou atenção foram os enfeites da rua do cemitério. Confesso que não sei exatamente como a rua se chama, e até perguntei a alguns jacurienses da gema que também não souberam me dizer, então, se me permitem, vou chamar carinhosamente e respeitosamente aqui como aprendi desde criança: Parabéns aos moradores da Rua do Cemitério, que enfeitaram com arcos de bambu e pintaram a rua e o meio-fio para receber os cortejos da procissão do enterro, uma forte tradição jacuriense. Senti falta de alguns labardeiros* tradicionais, de algumas vozes ecoantes na oração do terço e da entrega das pessoas se propondo colocar vasos e colchas (de cama) nas janelas para a procissão de domingo de páscoa, mas acredito que aos poucos vamos conseguindo reacender nossas tradições e conscientizar as pessoas da importâncias da preservação da nossa cultura. Não podemos, como dizia uma amiga jacuriense que não está mais entre nós, "deixar o povo esmurecer." 

Aproveito também para registrar minha satisfação com uma visita à célebre terra do grande Carlos Herculano, Coluna, onde pude conhecer pessoas maravilhosas, com quem passei uma tarde inteira falando de projetos, de cultura, do povo, da região... só assuntos elevadores. Tinha ido me integrar ao grupo de incentivadores e doadores da criação de bibliotecas em comunidades rurais de Coluna, um projeto promovido pelo Carlos Herculano e pela educadora Rosimara Trindade. Também pude prestigiar meu amigo Marcelo Coelho num show na Cavalgada Feminina de Frei Lagronegro. Fui muito bem recebido depois de mais de 15 anos sem ir à antiga "Bom Sucesso". Em resumo, meu final de semana em Jacuri e região fortaleceu ainda mais minha participação ativa na busca não mais e apenas, por uma Jacuri melhor, mas por uma região melhor. De volta, na mala, saudade, banana verde, queijo, poeira e um pouco mais de esperança.

*Labardeiros são homens vestidos de soldados romanos e na procissão representam os soldados que conduziram e sacrificaram Jesus. Eles trazem lanças ornamentadas com papel crepon e faziam uma coreografia combinada com uma música fúnebre orquestrada. Geralmente as crianças de Jacuri têm medo desses personagens e cresceram os chamando de "capeta" uma alusão à figura horrível de quem teria sacrificado Jesus. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Santo de casa deixa de fazer milagres



Desde cedo fui um sujeito social. Em minha primeira participação conscientemente social eu devia ter cerca de 4 anos, em um Festival de Pipoca. Era um evento de grande significância, que não mais era que uma convenção onde havia música agradavelmente alta, se servia pipoca salgada e um copo de "Ki Suco", podendo repetir à vontade. A iniciativa era para venda de ingresso e consequente arrecadação de dinheiro para formatura de alunos.  

Depois me integrei ao grupo de crianças comandados por uma das pessoas mais espetaculares que conheci na vida: Dona Maria Erdutes. Foi minha professora de catecismo e de lá fui para o coral infantil que cantava e organizava a missa das crianças. Fazíamos "jograis" com passagens evangélicas, termo que muitos nem deve conhecer. Era uma espécie de teatrinho, mas só com texto lido, sem figurino. 

Compus a "equipe do anjo", onde sempre às 18h, rezávamos a oração católica chamada pomposamente de Angellus, reproduzida para a cidade inteira no auto-falante da torre da igreja. Era um ritual que não falhava nunca, fizesse chuva, sol ou muita chuva. 

No grupo (escolar) participei de todos os eventos propostos. Eram famosas as gincanas da semana da criança. Já fui Tiradentes, soldado e até árvore quando não deixávamos passar em branco uma só data comemorativa do calendário cívico. Ajudei a cuidar da horta da escola.

Na igreja fazíamos peças teatrais das principais datas do calendário católico, como Natal, páscoa e outras. Todo ano era apóstolo na procissão do enterro na sexta-feira da paixão e na procissão de domingo de ramos ou do Divino. 

Fui aluno da primeira escolinha de futebol de Jacuri, que nem chamava escolinha, na época promovida pelo Zé Cláudio e Dininho e depois pelo Fisico. Nessa época  aconteceu o maior campeonato mirim da cidade, com vários times, quando defendi ao lado de grandes craques locais, o Atalanta. Nessa época conheci várias cidade da região, jogando, disputando campeonatos na categoria de "terceiro quadro". 

Participei de várias coroações, evento onde vestíamos de branco e entoávamos uma música rigorosamente decorada, semi suspensos no alto ao lado da imagem de nossa senhora.  

Participei dos saudosos desfiles de 7 de setembro, comandado um sujeito extraordinário, "bravo" e encantador, militar, Sr. Wallace. Aprendi sobre disciplina com ele.

Freqüentei os carnavais nas matinês do clube. 

No ensino médio, encenamos o Auto da Barca do Inferno, um clássico de Gil Vicente. 

Fui integrante do grupo de jovens, o J.A.C, onde compunha o coral do grupo, inclusive se apresentando em várias cidades da região. 

No ensino médio fui do time de vôlei. Competimos em cidades de mais de 100  quilômetros de raio de distância. 

Ganhei um prêmio de literatura que me presenteou com um passeio e vôo num avião da esquadrilha da fumaça, em Lagoa Santa. 

Acompanhei o time de futebol de Jacuri nos campeonatos regionais de futebol em diversas cidades da região, como torcedor assíduo e atuante. 

Socialmente, me envolvi em todos os eventos da cidade, que promoviam a cultura local, que propunham a preservação de nossa cultura e de nossos costumes. Contribuí, como muita gente espalhada por aí, fez.

Mas o fato que ilustra o título dessa postagem é que continuei sendo um ser social, contribuinte com todas as questões que já fazia desde muito novo, mas agora em outras freguesias.

Me vi desenvolvendo, a convite, um trabalho sensacional de oficina de cinema com adolescente carentes em Caeté, projeto me rendeu grande reconhecimento local. 

Desenvolvi trabalhos muito enriquecedores em Machado e Pouso Alegre, no sul de Minas, e a um ano trabalho com um projeto de Comunicação em Saúde nas secretarias de saúde de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim. Em Conceição, pude trabalhar na criação de um jornal exclusivo da saúde que chega esse mês à segunda edição e ver um grupo de artesãs de tapetes arraiolos revitalizando a prática de "fazer tapetes" e produzindo peças para exportação.

Mas onde quero chegar? Hoje foi um dia muito importante para mim, de muita alegria e confesso que de um pouco de... digamos que reflexão. Fui convidado para participar da Conferência Municipal de Saúde de Conceição do Mato Dentro, que discutiu esse ano a promoção à saúde, a atenção integral e a atenção primária. Às vésperas de completar um ano atuando nesses municípios, pude acompanhar dados, metas, processos, estratégias, projetos, prêmios conquistados e sempre me vinha à cabeça como seria se toda aquela energia que via em mim e em profissionais com quem tive a honra de lidar, pudesse ao menos em parte, ser pensada para minha querida cidade. Quase me senti um traidor em pensar que minha primeira participação em uma conferência de saúde não fosse em minha cidade. E digo isso sem partidarismo ou conotação política, visto que para quem não sabe, uma conferência de saúde é um evento democrático e aberto à população, onde todos podem contribuir para a melhoria da saúde. Mas eu nunca contribui lá, embora tenha me entregado bastante à outras comunidades. Isso me deixou pesaroso. 

Enfim, se me fiz entender, esse é só um desabafo. Fico imaginando quantas pessoas que não moram mais em Jacuri e poderiam colaborar de certa forma com o desenvolvimento local, aplicando lá, práticas e experiências positivas dentro de cada conhecimento. As escolas fecham as portas para o ex alunos, a administração pública não propõe diálogo e aproximação com esses agregadores, a sociedade abre mão de talentos natos do lugar. Acredito haver questões que desconheço o teor mas sou capaz de dizer que fogem completamente ao que seria interessante para todos nós: uma sociedade melhor. Fico imaginando uma conferência de saúde, por exemplo, com a participação de médicos jacurienses convidados, já que temos vários, que mesmo não atuando profissionalmente na cidade, poderiam colaborar por conhecer a realidade do lugar. 

Bom, sigo acreditando no que disse Paulo Freire: 'Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo'. E eu tento fazer minha parte. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O que era raro ficou comum

Eu que nunca tiro férias, que nunca páro... me vi em movimento com o corpo e a alma nos últimos dias. Longe do automatismo costumeiro, vi minha segurança, minhas certezas, meus planejamentos, meus exames clínicos fazerem uma verdadeira revolução na minha rotina. Uma vida tão automática me levou a pensar se realmente precisaria de mim para vivê-la. A sensação que tive que bastava abrir os olhos, levantar da cama, fazer uma refeição aqui outra alí e pronto, já estaria vivendo. Confortavelmente. 

Mas precisou de um médico me alarmar com uma cirurgia de hérnia e tudo mudar. Muito medo de todos os elementos estranhos que inauguravam esse ano tão novo: exames complexos, risco cirúrgico, repouso, não pode subir escadas, repouso, não pode dirigir, filme, livros, filmes, filmes, livros e livros, cama, além da proibição de outros prazeres deliciosos. 

A cirurgia foi um sucesso e a recuperação vai bem, apesar das dores que segundo o médico, são normais. Depois de 3 dias em casa, já assisti a duas temporadas de uma série americana que não saia do primeiro episódio, 5 filmes, um livro de 220 páginas e várias revistas. Sem falar no tempo para fazer planos, assistir a algumas palestras do TEDx, rascunhar coisas... 

Entre os filmes, "Perfume de Mulher" foi dos mais "porrada", principalmente porque lida com um tema que sempre me intrigou: a velhice. A cena do Al Paccino dançando tango com a atriz Gabrielle Anwar é sensacional e faz pensar que pode não haver tanto problema em ficar velho, desde que se consiga dançar aquele tango.

No mais, esses dias de recuperação tem sido dias de encontro com alguém que andava meio esquecido, sumido. E nessa de recuperar sensações, eis que até o blog ganhou texto.  

E entre um milhão de coisas que se sente e não se escreve, ficam para esses dias, a presença de quem é insubstituível, a doçura divinal que é ter a mãe por perto, o medo da fragilidade da vida, a solidão diante da própria presença, o ópio que é descortinar a vida através de bons filmes e bons livros, a falta que alguns prazeres nos causam.

No mais, é não voltar para o lugar médio e comum do automatismo. Enquanto isso, um brinde ao melhor da vida: viver. 
"E tudo ficou tão claro
O que era raro ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum"
( Somos quem podemo ser - Engenheiros do Hawaii)

Cena de que falei, do filme "Perfume de Mulher".

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Manifesto: Jacuri pede socorro




Estamos no último dia de 2014 e não poderia deixar que o ano acabasse sem esse manifesto. Impressionante que o que podemos chamar aqui de "evolução da sociedade" ainda viva um verdadeiro retrocesso em vários sentidos. 

Considerando a democracia no consumo da informação e na produção e consumo de conhecimento, como os smartphones, a internet e o acesso ao ensino superior, esperamos ou deveríamos esperar, que hoje com pessoas mais bem informadas e com mais conhecimento, tivéssemos com isso uma maior contribuição para a construção de uma sociedade melhor. Ao contrário, o que vemos é um distanciamento cada vez maior desses "novos compreendidos", dos problemas sociais e políticos do lugar em que cresceram e onde se formaram cidadãos.

Jacuri deu ao mundo dezenas de professores, um número altíssimo de médicos, farmacêuticos, analistas de sistema, advogados, enfermeiros, engenheiros, técnicos, juiz, jornalistas... que circulam por suas ruas nos períodos de férias. Cito esses diplomados para ressaltar que falta de informação e conhecimento não é impedimento para qualquer compreensão da situação em que a cidade vive hoje. Isso sem falar nas centenas ou milhares de pessoas que não passaram por uma faculdade, a exemplo do meu pai que cursou só o primário, mas mesmo assim, num esforço diário, vive o dia a dia do lugar com certa indignação mas não sem esperança. Esperamos mais que apenas alguns trocados gastos no comércio local durante as férias, desses cidadãos conscientes, mas que contribuam urgente para a promoção da nossa sociedade. 

Uma cidade com pouco mais de 6,5 habitantes (IBGE 2014) apresenta questões sérias que deveriam no mínimo nos fazer pensar. Vivemos um longo período de ostracismo cultural, com uma perda considerável da nossa memória e identidade, um ranso político que considera política um jogo sujo de interesses egoístas e conduções nada transparentes, que absurdamente fazem inimigos que teoricamente deveriam lutar pela mesma coisa. Nossas lideranças comunitárias não lideram mais, a igreja se intimidou, a socialização das pessoas - de grande parte delas - se resume a shows populares na praça uma vez no ano. O ensino não aprendeu a lidar com esse novo perfil de alunos, desmotivados e desnorteados, sem idealismo, diferente por exemplo da minha "turma legal" de 8a série que cantava Legião Urbana e questionava o sistema. 

Sobre nos fazer pensar, invoco a cada jacuriense, que por menor que seja sua consciência social, não consiga mais dormir sem se certificar de que a porta de casa esteja seguramente trancada, como se isso fosse de fato uma proteção contra essa realidade que nós estamos criando. Somos culpados sociais das vítimas sociais produzidas por nós, e o pior, fingindo ser um problema "dos outros", mesmo estando ele ao nosso lado. Banalizamos o fato de um jovem dar fim à vida com um tiro na cabeça. E tivemos outros casos de suicídio que coloca a proporção de suicídios p/ habitante de Jacuri uma estatística pavorosa. Pacientes psquiátricos? Casos notificados? Acompanhados? Não sabemos e nem jamais saberemos enquanto banalizarmos esses feitos, gravíssimos. Os casos de depressão assustam mas arrisco dizer que os casos não diagnosticados podem ser mais de dez vezes maiores. E o caso da invasão das drogas, tanto no âmbito de uso quanto no tráfico, já que onde há usuário há traficante, completamente ignorado e banalizado na cidade? A questão do uso não é mais um caso de polícia mas de saúde pública já que polícia não trata viciados. 

Jacuri está gravemente doente, pedindo por socorro, caminhando para um agravamento e tão logo o veremos agonizando.  É o preço a ser pago por termos abandonando nossos valores, nossa identidade cultural, pelo abandono das políticas sociais que apostavam nas pessoas como agentes transformadores. Estudei numa Marcílio Dias que me ensinou a ser cível, a cantar todos os hinos (ainda sei todos), a guardar todas as datas comemorativas, a respeitar a lei e a ordem. Uma John Kennedy me ensinou sobre o mundo que me esperava lá fora, me preparando para ele. Lá estudei sociologia e política, inclusive de outras culturas. É essa a escola que precisamos. A escola que forma um cidadão direito, consciente do seu papel social, dos seus direitos e mais ainda dos seus deveres. 

A lista de questões urgentes seguem com uma ação efetiva e reforma contundente nas escolas, na sociedade e no poder público que deve oferecer aos jovens outra opção que não seja o incentivo ao etilismo, na ação policial que deve coibir o trânsito de não-habilitados e alcoolizados ao volante, que deve combater piamente em conjunto com a polícia civil o tráfico de drogas, a igreja que deve manter firme seu papel social de inserir o cidadão num grupo que o reconheça. Das lideranças sociais e comunitárias, que devem além de tudo, resistir às dificuldades oriundas do abandono em que vivem, como líderes. Aos jacurienses ausentes, a quem cabe um papel mais ativo visto que também são parte do lugar. Ao poder público representado pelo papel da prefeitura, que deve de uma vez por todas entender que gestão pública é gestão participativa e transparente, se eximindo de qualquer favoritismo e pretencionismo, se guiando sempre pelo caráter e pela retidão, e principalmente consciente de que não existem crimes grandes ou pequenos, mas crimes. E de uma forma geral, à toda a comunidade que deve resgatar a todo momento, nossos valores, nossas festas, nossas tradições, nossa história. 

Solução? De acordo com Marx, a "sociedade civil é o sistema de relações sociais, realizadas através de instituições sociais encarregadas de provê-la, como família, igrejas, escolas, polícia, partidos políticos, meios de comunicação, etc. É o espaço onde as relações sociais e suas formas econômicas e institucionais são pensadas, interpretadas e representadas por um conjunto de idéias morais, religiosas, jurídicas, pedagógicas, artísticas, científico-filosóficas e políticas.'' Isso significa que não haverá o que fazer se cada grupo fizer sua própria intervenção. Essa intervenção deve ser conjunta, social, onde todos têm papéis participativos e bem definidos. Marx diz que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem em condições escolhidas por eles. "São historicamente determinados pelas condições em que produzem suas vidas." E quais são as condições que produzem nossas vidas hoje, em Jacuri?


Sendo assim, antes que novos desastres aconteçam, que novas vidas se percam, que novas famílias se choquem, possamos fazer alguma coisa, já que definitivamente não estamos alheios ao que acontece em nossa Jacuri porque somos parte dela. 

Jacuri pede socorro. E a culpa é nossa. 

"Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina sua consciência."

sábado, 30 de novembro de 2013

Mas o amor, o que é?


Esqueceram de avisar à ele o que só conseguiu compreender agora, depois de voltar de uma viagem astrológica. Não, não acredita em astrologia como já disse aqui, mas vez ou outra lê o horóscopo no jornal. Se não faz bem, mal também é certo que não há de fazer. Mas voltando ao que compreendeu, é que quanto mais se ama, mais amor se tem, de si próprio. Amor é uma coisa que damos ao outro para termos, de nós mesmos. 

Ler um post num blog que segue, hoje pela manhã, lhe causou a indignação que precisava para dizer o que pensa, da forma mais rasa possível, sobre essa coisa de amor. O autor, visivelmente em pendenga conjugal, falava de amor incondicional, sem esperar nada em troca, de entrega, de amar defeitos e aceitar a pessoa com seus descasos. Parecia se tratar de um amor-penitência. 

Mas pensava ser o amor outra coisa. 

Não tem certeza, porque de uns tempos para cá perdeu toda certeza possível nas coisas dessa vida, mas ocorre de possibilitar que talvez esse tipo de amor beire à falta de amor próprio. Amor de uma mão só perde a instabilidade e sai da estrada, vai para o barranco. 

Amor é cultivado, tratado, cuidado. Pelo menos pensa que é assim. Acha que gosta de quem admira, com quem tem vontade de estar junto, conversar sobre nada, sobre tudo e sobretudo, ficar em silênio, para ouvir. Rir do lá lá lá rá rá enquanto tira poeira, os pés se procurando de madrugada, o pensamento de dois chás, dois copos. Amar é pensar par. Só quem é surpreendido por um beijo sabe o quanto custa pouco visitar o céu. Ousa dizer que amar é visitar, em assaltos de tempo incontáveis, o paraíso. 

Amar tem algo de caber no mesmo lugar e de ser o mesmo sorriso. E como ele, sem competência alguma para tratar assunto tão além da sua compreensão, para além dos achismos e depoimentos, convoca a quem, por mérito e competência, lhe ensinou um pouco desse alento:

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade em "As sem-razão do amor"

E ainda no assunto, para ouvir, "Poema", de Ney Matogrosso. 


sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sempre haverá um pouco de nós espalhado por aí



Depois de muitos anos morando fora, ele chegou a voltar algumas vezes naquela mureta. Subiu a rua, as escadas. Veio fazendo o mesmo caminho desde a passarela da rodoviária. Não tinham mais os mesmos mendigos por alí, na Lagoinha. Ia brincando de jogo dos erros, não 7, mas dezenas deles, dando falta da passarela e da placa de Pneus OK. 

Subindo a rua, a escadaria ainda era a mesma. A vista lá de cima também. Na verdade era outra vista mas ainda proporcionava o mesmo prazer em olhar para o nada, para a cidade indo daqui para alí.

Para completar aquela reprodução, faltava comer miojo e assistir MTV. Foi a primeira vez que fizera essas duas coisas naquele apartamento da tia do amigo. 

Depois pegou um ônibus, para se perder e descer no ponto errado, como fizera daquela vez. Não conseguiu se perder. Reconheceu a igreja da Floresta quando passou pela porta. Também não soube onde teria que descer para refazer a volta à pé pela Savassi. Onde ouviu o primeiro samba na vida diretamente de uma roda de samba de verdade, de bar movimentado passou à lanchonete. E nem moças da vida perfumavam mais aquela esquina, agora clara e mal-cheirosa.

Não sabe mais precisar onde era aquela pizzaria da primeira pizza. 

Fumou cigarro de hortelã. Mas o gosto parecia de cigarro sem hortelã. Baixaram a dose de hortelã? 

- Alí tinha um orelhão. 

Girou 360 graus. Baixou e subiu os olhos, os jogou para o céu. Quase rodou e tonteou. Sentiu apertar o coração. Isso é perda, isso é encarar o tempo, e fazer dele um ganho. Quis chorar mas como sempre acontece quando quer chorar, não consegue. 

Então quis rir. E rir conseguia. Riu timidamente. Suspirou. E começou a descer as escadas. Vez ou outra olhava para trás para ter certeza que o tempo era outro. 

E assim se despediu daquelas memórias da primeira vez que viera a Belo Horizonte, com dois dos seus melhores amigos.  

Hoje aquela rua que quase não existe mais, é só uma lembrança boa. Por muito tempo foi a prisão num lugar bom para se visitar, mas ruim para se fazer moradia.

Às vezes é preciso voltar a alguns lugares aonde deixamos um pouco de nós. 






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Diga "trinta", Rodrigo Porto



O tempo passa. As pessoas passam. Fácil se lembrar de antigos colegas da escola, da rua, do trabalho...

Colegas de turma que um dia eram "brotheraços" e hoje, mesmo com facebook ou no facebook, nem nos damos conta do rumo que tomaram na vida. 

Faz parte...

Mas também há pessoas que vão contra qualquer adversidade, contra até mesmo compatibilidade de gênios e gostos, para sobreviver ao tempo que for preciso.

Conheci essa figura quando fazíamos estágio numa empresa de educação. Eu era estagiário de jornalismo e ele de publicidade e nossa aproximação se dava no máximo porque ele fazia umas piadas estupidamente ruins durante o café e todos riam. Parecia um terrorista checheno, magro barbudo e de óculos.

De lá para cá um milhão de coisas aconteceram.

Cirurgia nos olhos, não usa mais óculos, a barba agora parece a do Bin Laden, se formou na faculdade (nos formamos), pessoas saíram das nossas vidas, outras entraram, ele se tornou um músico de verdade (com música gravada e tudo), fizemos alguns trabalhos juntos, abrimos uma produtora, hoje compartilhamos de muitas coisas, nos tornamos sócios, nos tornamos irmãos desses que a gente escolhe.

Hoje gostaria de celebrar a generosidade desse cara, que larga o que estiver fazendo para levar/buscar a gente no aeroporto do outro lado da cidade, que divide as loucuras, o Jack Daniels, a gasolina, os sonhos, os convites maneiros para shows, festass, jogo, lutas... que surpreende com presentes malucos (bola de baseball, guarda-chuvas, coleção de garrafas de vodka, um skate...), que defende e protege os amigos como um bicho protege sua cria, que leva minha mãe ao médico...

Nós somos muito diferentes e talvez isso seja a sentença de que nossa amizade é mesmo uma coisa de Deus... porque apesar de todos os nossos "quebra-pau", nós nos respeitamos.  E por isso somos irmãos. Aprendo muito com esse sujeito, a cada dia.

Irmão, hoje vim aqui agradecer a Deus, antes de qualquer coisa, por ter colocado você no meu caminho, e a você, pela amizade e pelo companheirismo de sempre. É uma honra tê-lo como colega de trabalho, como sócio, como cúmplice e como amigo.

Feliz aniversário, meu brother.

Você é um ser que precisa ser estudado. 

(sim, isso é um elogio)

Que essa nova fase fase te faça muito bem, afinal de contas muita coisa muda depois do 30. E muita coisa bacana te espera, agora que está mais maduro (velho, entendeu?!)

Abraço, "Velho Mártir".

No vídeo, "Velho Mártir" da banda Montese, da qual Rodrigo faz vocal e guitarra.